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01/02/2022

Sobre o olhar.

Gosto muito dessa foto. Não porque ela seja uma ótima fotografia para a posteridade: “Olha só como você era jovem!”. Ou porque traga consigo lembranças de dias bem vividos. Ao vê-la encontro meu próprio olhar e, por isso, me alegro. Porém, a foto oculta sua real verdade: não são os meus olhos que estão aí, mas sim um olhar amoroso que, quando posto sobre eles, os ilumina. E somente isso é capaz de nos curar.

A princípio, olhar nos olhos de alguém exige certa coragem interior porque precisamos aprender a suportar o íntimo incômodo que vem dessa ação. Porém, se somos perseverantes, logo nossa visão descansa na contemplação do outro e, a partir disso, somos libertos: libertos dos pensamentos que, como um cavalo louco, correm para todos os lados. Faz-se silêncio. Encontramo-nos.

22/12/2020

Os olhos.

Com teus gestos de menino,

Gracejos de homem esquecido,

E uma voz muito bem colocada,

Alcanças o íntimo de minha alma.

 

O véu é branco, velho e tão fino.

Rasga fácil e revela meu olhar dolorido.

Não resisto, deixo-me ser encontrada.

Permanece em segredo aquilo que falta.

 

– Repousa teu olhar em mim

E descansa do peso de teus dias.

Na minha ausência há algo que fica,

E se aninha ao todo de teu ser.

 

Em cada beco, um palavrório sem fim

Que rouba e assalta todos os dias.

Só o silêncio me prepara e fortifica

Para o dia de te ver – o dia de morrer.

20/09/2020

Retirante trovador.

Quem põe em versos essa voz?

Incenso sem fogo, sem oração.

Ecoa uma voz aguda.

 

O fio da vida que desfia em nós

Enlaça o medo, aparta assombração.

A voz é muda.

 

O cego é o guia.

Místico cantador que pisa em pedra.

Sem trajeto, eterno andarilho.

 

– Tua voz minha estrela-guia!

No sertão, os latidos da cadela.

O Sol é o guia. Ele, o filho.

06/07/2020

Poética.

As poças de água brilhando com a chuva:
Cai gota por gota – perfeita calmaria!
Sobre a terra que cobre o marido, a viúva
Chora lágrima por lágrima. Ave Maria!

Arfa de dor e amor: velha, curvada e magra.
Silenciosamente aperta as mãos em prece,
Sua alma relutante à Virgem consagra.
Mesmo se confessar aos outros pudesse

Que palavras cumpririam fiel serviço
De emoldurar uma vida inteira de amor?
Além da Morte, que poeta poderia

Ter nas mãos tão incompreensível artifício
Capaz de salvar do último beijo o ardor
Como quem sabe que o primeiro esqueceria?

Gabriela Miranda.

16/05/2020

Desabrocham os botões.


Grande vantagem possuem as flores!
Envoltas numa perfeita simplicidade
Transmitem aos homens os odores
Das suas singelas formas de felicidade.

A beleza primaveril é singela;
Salta somente aos olhos a pequenez
Que brilha como uma vela
Prestes a derreter de vez.

Aprende-se muito contemplando o desabrochar
De uma flor, que se viu crescer dia após dia
Pois nela está tudo que uma alma pode almejar!

Escutar a doce e sincera melodia
Que ecoa em nós – devagar e sem cessar,
Preparando-nos para o grande dia...


Gabriela Miranda

03/05/2020

Convite amoroso.


Cada olho denuncia
Quantos dias traçou
Com a mão que tremia.
Um segundo passou...

Com os lábios amargos
Me convida para ir
Conhecer seus afagos
– É pra te divertir!

Não, eu não posso senhor.
(Perfeitamente vivo,
Vive assim sem dor?)
Como num improviso

vê meu olhar e sorri!
Ansioso repete o convite
Esperançoso pelo por vir:
Nego. O olhar persiste

Tentando arrancar
De mim um segredo.
O ônibus parece parar
E ele, sem medo

Permanece em pé.
Ao se aproximar
Sente a latente fé
Com a qual tento alcançar

Suas vísceras apodrecidas.
Sorri. Se despede
Com palavras entristecidas.
Algo me impede

De elevar à voz e dizer:
Senhor, o caminho não é este!
Mas não posso ser
Essa que diz o que sente.

Porque na sua miséria
Eu também existo.
Somos da mesma matéria;
Redimidos pelo Cristo.

Amei aquele velho
como quem ama algo valioso.

Havia um homem vivo diante de mim.

Gabriela Miranda

24/04/2020

Instante


Foi o teu olhar - é evidente!;
Que tocou o meu segredo.
Queria ser sua confidente,
Escutar sua voz sem medo.

Enterrei as flores que me deu
Suspeitando que iriam renascer...
(Enfeitariam a casa onde viveu)
Murcharam todas: ninguém quis ver.

As suas cartas, estas eu guardei!
Palavras inúteis lidas a todo o momento.
Derramo lágrimas finas; a tinta secou.

O seu perdão sempre esperei...
Coração em perpétuo tormento!
Nele pulsa o sangue que te matou.

Gabriela Miranda