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27/11/2023

Por onde eu começo? - Como se preparar para a chegada do bebê

Rencentemente estava lendo os posts sobre maternidade no blog da Clayci (clique aqui para acessar) e fiquei inspirada a compartilhar um pouco da minha trajetória por aqui. Desde que descobri a gravidez, comecei a pensar por onde deveria começar. A resposta que me pareceu mais certa naquele momento foi: por mim mesma. Assim, comecei a pesquisar sobre a gestação, o parto, a amamentação e os primeiros cuidados com o bebê, já que todos esses assuntos me envolveriam pessoalmente quando chegasse a hora de vivê-los, e ninguém, além de mim (e do meu marido), poderia se responsabilizar por eles.

Esse estudo foi progredindo aos poucos, sem pressa, e agora, já quase na reta final para o nascimento da minha filha, ainda sinto que não sei nada. É pra rir, né não? Mas é assim mesmo, e isso foi uma das coisas mais importantes que eu aprendi durante esse processo: é preciso que exista uma dose de incerteza e despreparo para que haja amadurecimento.

Por isso, no blogpost de hoje quero partilhar com vocês as principais referências que usei e continuo usando para me preparar para a chegada da Filomena, minha bebê. Aproveito para dizer que meu objetivo não é dizer o que devem ou não fazer, mas dividir o que foi positivo na minha experiência na esperança de que você encontre e trilhe seu próprio caminho.

05/07/2022

Impressões de leitura – A vida de um idiota, de Ryūnosuke Akutagawa.

Uma fotografia do autor.

Desde o início da minha adolescência, eu sempre gostei de escrever diários. Demorava-me muito tempo relatando os acontecimentos da semana, aquilo que havia mudado desde o meu último registro e minhas impressões pessoais sobre a vida. O que mais gostava era de, passado um bom tempo, reler aquelas memórias que, agora, tinham sabor de saudade. Assim, a cada nova etapa de minha vida, eu conseguia, por meio desses cadernos, compreender a completude dos anos que se passaram e depreender alguns aprendizados importantes.

Portanto, quando comecei a leitura do relato autobiográfico de Akutagawa intitulado A vida de um idiota acabei me encontrando no meio daquela história tão trágica. Apesar do narrador ser em terceira pessoa, ele nos transmite com tanta precisão a subjetividade do protagonista que parece que estamos ao seu lado: vendo-o caminhar progressivamente em direção à desesperança, à morte. Identifiquei-me com o tom intimista da narrativa, porque além do efeito citado anteriormente, em alguns momentos me sentia coparticipante daquela história. Assim, pouco a pouco, a cada palavra lida, meu coração foi sendo tomado por um amargor triste.

Encontrei pequenas gotas de consolo nas belíssimas descrições feitas sobre o espaço ficcional, porém a que mais me alcançou foi aquela em que ele descreve a luz lunar iluminando o rosto da mulher amada: “O rosto dela parecia, como sempre, banhado pela claridade da lua.” (pág. 192). Nesse e em outros momentos vislumbrei lampejos de esperança, como no seguinte excerto: “Mas apenas aquelas faíscas violetas – aquelas faíscas incontroláveis que se fundiam no ar –, ele queria agarrá-las com as mãos, mesmo que tivesse de pagar com a vida.” (pág. 182).  Criei certa empatia por esse sujeito taciturno e um desejo de comunicá-lo as belezas mais profundas que, ao que parece, lhe passavam despercebidas.

Assim, acabei por encontrar na fala de uma colegial uma luz radiante, que se assemelhava a de um cometa – forte, mas fugaz: “Mas a sede de escrever não é também a sede de viver?” (pág. 195).  Dita uma única vez, essa verdade não é em nenhum momento formalmente retomada pelo narrador, mas permeia toda a existência do protagonista. Apesar de seus sofrimentos e de seu trágico final, seu desejo pela vida se materializa na eternidade das palavras. A prolongação do próprio sujeito em seus escritos também está presente na convivência quase pessoal que ele nutria em relação aos autores que lia.

Portanto, ao término dessa leitura pude contemplar o ciclo de uma vida, descobrindo pequenos pontos de luz e abismos de escuridão. Vi que, assim como acontece quando finalizo a leitura de um diário antigo, a força da forma poética é capaz de transformar a dor em beleza e de dar a uma alma inquieta um pouco de sossego e paz, porque ela estabiliza nossas impressões subjetivas e ajuda-nos a enxergar com clareza aquilo que nos circunda. Assim, apesar de lamentar profundamente aquilo que lhe aconteceu, agradeço a gentileza que este homem teve de nos deixar registrado sua intimidade mais profunda e se tornar mais uma tímida luz a clarear a noite escura que vivemos: “Parando ao pé da árvore, ele ergueu os olhos, por entre os galhos, para o alto céu. Lá, bem sobre sua cabeça, brilhava uma estrela.” (pág. 184).

17/07/2020

Leitura: Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski.


Recentemente terminei de ler Os Irmãos Karamázov e fiquei pensando se escreveria alguma coisa sobre essa leitura aqui. É um livro gigantesco - tanto em tamanho como em profundidade, e meus comentários não poderiam ser nada além de impressões totalmente pessoais. Consegui vislumbrar alguns abismos e esconderijos onde tesouros preciosos poderiam estar escondidos, mas não passou muito disso. Contudo, ser capaz de distingui-los no meio de palavras que se seguiam ad infinitum foi muito encorajador! "Bom, pelo menos consigo ver que há alguma coisa aqui", foi o que eu pensei.

Esse tipo de livro toca profundamente em algo que há muito tempo foi esquecido, deixado de lado, embalado junto com o lixo da cozinha: o mistério. Literatura não é texto jornalístico, não é informação facilmente digerível, feita para ser lida numa sentada, num passar de olhos, sem nenhum respeito a quem escreveu. É preciso atenção, cuidado e abertura! Nossos corações se endureceram porque queremos sempre ter as melhores ideias, tomar os melhores partidos, ter uma vida que não passa pela fase do não-ser, ela tem que acontecer agora e pra já e depressa. E a paciência? E o silêncio frente ao desconhecido? Não temos tempo para isso... Não estou fora desse grupo, aliás, por saber dessas coisas é ainda mais doloroso ver como isso verdadeiramente está presente em nós. É triste.

Escrevo tudo isso por causa de uma passagem no livro que me encantou muito: a conversa de Aliocha com Kólia. Vejo que nós, ou pelo menos uma boa parte de nós, somos como o Kólia. Sedentos por uma vida própria e ansiosos para marcar a história do mundo, devoramos as primeiras e mais absurdas propostas que nos apresentam. O cuidado excessivo da mãe talvez tenha potencializado isso, fazendo com que o menino tivesse medo de não conseguir dar uma resposta à altura e acabar como  um filhinho da mamãe para sempre, com ideias retrógradas e extremamente incoerentes com o modelo de jovem revolucionário. Em contraste, temos Aliocha: o cara que foi para o mosteiro. Bom, ele realmente está fora do círculo de influências do grande Kólia. Mas o que livro nos conta, colocando na boca do próprio personagem, é a profunda curiosidade e admiração de Kólia por Aliocha.

É muito bonito contemplar como o garoto começa a desabrochar diante dessa figura intrigante. Aliocha se abaixa e consola, toma o menino pela mão e o reposiciona no caminho correto. Ele abre um espaço no peito para que lá o pequeno se encontre, fazendo com que se sinta igual à ele. E de fato ele é, ou melhor, pode vir a ser. Porém, Kólia sabe que está diante de alguém extremamente superior a ele. Arrisco dizer que, talvez, a força desse encontro venha da experiência de enxergar como a grandeza pode se fazer pequena e reconhecível até para olhos imaturos e prepotentes. E graças à este livro, também puder viver esse encontro e me questionar se a vida já tinha me oferecido essa oportunidade antes.

E sim, a vida já tinha me oferecido isso antes e, pasme, ela me oferece todos os dias. O que quero com este texto não é fazer uma resenha, crítica ou coisa do tipo. E mesmo se quisesse, não poderia, já que não tenho as ferramentas para isso. Simplesmente espero que ele sirva como um afastador no peito de cada um. Essa passagem do livro me colocou diante de algo que não consigo dizer, a não ser que transcreva aqui todo o trecho. Mas suspeito que, mesmo se fizesse isso, ainda assim seria muito difícil explicar as causas do meu encanto por um raciocínio lógico e causal. Sendo assim, só tive uma opção: abraçar este mistério e conviver com ele dia e noite, até que chegue a primavera e ele desabroche.