06/07/2020

Poética.

As poças de água brilhando com a chuva:
Cai gota por gota – perfeita calmaria!
Sobre a terra que cobre o marido, a viúva
Chora lágrima por lágrima. Ave Maria!

Arfa de dor e amor: velha, curvada e magra.
Silenciosamente aperta as mãos em prece,
Sua alma relutante à Virgem consagra.
Mesmo se confessar aos outros pudesse

Que palavras cumpririam fiel serviço
De emoldurar uma vida inteira de amor?
Além da Morte, que poeta poderia

Ter nas mãos tão incompreensível artifício
Capaz de salvar do último beijo o ardor
Como quem sabe que o primeiro esqueceria?

Gabriela Miranda.

13/06/2020

Poesia e silêncio.


“Quando n'alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.”

No começo do mês comecei a decorar este poema do Manuel Bandeira, mas pela suposta agitação e ocupação exaustiva daqueles meus dias, acabei parando na segunda estrofe. Pensando que um poema decorado já não serve pra muita coisa, meio poema serviria menos ainda – essa era a minha íntima constatação. E vivi meus dias andando de um lado pro outro, tendo em alguns momentos a lembrança destas palavras que de certa forma me chamavam. Passou.

Dia vinte e um de março de dois mil e vinte. Logo ao acordar, esse poema surge em minha memória. Não me disse nada além das palavras que já conhecia, mas o silêncio dos últimos dias tinha me dado uma nova possibilidade: escutar o que antes não podia. Calada, sentada e atenta: penso nele. Tenho estudado um pouco sobre a história de Portugal e me encantado com o tipo de vida que se vivia há tanto tempo atrás: os reis, os camponeses, as disputas, as guerras, as preces, as pestes... “Quando n'alma pesar de tua raça, a névoa da apagada e vil tristeza...”! É isso! É exatamente o que estamos vivendo!

No poema, Bandeira fala sobre o povo português e o grande Camões. Sei muito pouco sobre o contexto histórico em que foi escrito, e se por acaso Portugal passava por algum momento difícil, portanto estou limitada a dizer somente aquilo que a minha ignorância grosseira pode apreender. Vivemos dias incertos (sempre foi assim e será). Antes, caminhávamos na vida à moda da prosa: correndo por muitas linhas, parágrafos, páginas. Sem pausas ou instantes concentrados de vida que clamassem por atenção. Tudo estava disperso e nossos corações vazios. De repente, da prosa fez-se a poesia. Ao homem desatento a vida pediu atenção, e ao homem barulhento ela pediu silêncio. Era isso que antes buscávamos sem saber...

“Busque ela sempre a glória que não passa, em teu poema de heroísmo e de beleza”, eis a receita do bolo. Mas que poema é esse?, poderíamos perguntar. Camões escreveu tantos, Bandeira outros mais. E hoje há um florescer constante de gente que escreve e que quer ser lida. Para onde devemos então voltar o nosso olhar? Para os nossos poemas! Existe uma frase que gosto muito e ela diz assim: transformar em poesia heroica a prosa de cada dia. E é dessa poesia que estou falando.

Bandeira dirá sobre o poeta lusitano: "Gênio purificado na desgraça, tu resumiste em ti toda a grandeza: Poeta e soldado...". Diante dessas palavras a constatação foi clara. Como o poeta e o soldado, devo estar atenta ao essencial, mas um me conduzirá ao alto e o outro fincará meus pés no chão.

Só com metade de um poema fui salva dos mares agitados destes tempos.


Texto escrito originalmente no dia 21 de março de 2020.

18/05/2020

Fiquemos atentos!


Quando decidi começar a escrever este blog, fiquei pensando sobre o que poderia falar. Não quero causar mais barulho. Aprecio o silêncio e tudo que ele me ensinou. Então, tenho o coração dividido. Vivi muito pouco. Sobre o que poderia falar? Logo reconheço: é tempo de calar, plantar, esperar. Mas este tempo é tão maluco e tão exigente, que ele também precisa que eu fale em alguns momentos. Mas, muitas vezes, não sei o que falar. Quando isso me acomete, de repente no final de um dia muito angustiante, escuto as músicas do meu cantor predileto.

Ele canta e cala. É silencioso. Suas músicas fazem a corda do meu coração ressoar. Portanto, hoje, deixarei que ele fale por mim. Recomendo que tirem um momento do dia para escutar estas músicas, elas merecem atenção.




16/05/2020

Desabrocham os botões.


Grande vantagem possuem as flores!
Envoltas numa perfeita simplicidade
Transmitem aos homens os odores
Das suas singelas formas de felicidade.

A beleza primaveril é singela;
Salta somente aos olhos a pequenez
Que brilha como uma vela
Prestes a derreter de vez.

Aprende-se muito contemplando o desabrochar
De uma flor, que se viu crescer dia após dia
Pois nela está tudo que uma alma pode almejar!

Escutar a doce e sincera melodia
Que ecoa em nós – devagar e sem cessar,
Preparando-nos para o grande dia...


Gabriela Miranda

03/05/2020

Convite amoroso.


Cada olho denuncia
Quantos dias traçou
Com a mão que tremia.
Um segundo passou...

Com os lábios amargos
Me convida para ir
Conhecer seus afagos
– É pra te divertir!

Não, eu não posso senhor.
(Perfeitamente vivo,
Vive assim sem dor?)
Como num improviso

vê meu olhar e sorri!
Ansioso repete o convite
Esperançoso pelo por vir:
Nego. O olhar persiste

Tentando arrancar
De mim um segredo.
O ônibus parece parar
E ele, sem medo

Permanece em pé.
Ao se aproximar
Sente a latente fé
Com a qual tento alcançar

Suas vísceras apodrecidas.
Sorri. Se despede
Com palavras entristecidas.
Algo me impede

De elevar à voz e dizer:
Senhor, o caminho não é este!
Mas não posso ser
Essa que diz o que sente.

Porque na sua miséria
Eu também existo.
Somos da mesma matéria;
Redimidos pelo Cristo.

Amei aquele velho
como quem ama algo valioso.

Havia um homem vivo diante de mim.

Gabriela Miranda

29/04/2020

O jardim da poesia.


Hoje em dia é realmente muito difícil enxergar o que as palavras escondem. Em tempos onde a linguagem precisa ser clara, inequívoca, objetiva e informativa, a poesia ou qualquer linguagem um pouco mais artística não tem importância. Porém, por mais que se busque viver assim, não é para isso que os nossos corações, arrisco dizer que até as nossas línguas, foram feitos.

Comecei a fazer aulas de teatro quando tinha onze anos, e sempre me perguntavam a mesma coisa: como você faz para decorar todas essas falas? Sempre respondia que essa era uma das partes mais simples, só era preciso ficar repetindo incansavelmente as mesmas falas até que em algum momento meu cérebro entendesse que aquilo era importante e deveria ser guardado numa parte especial da minha memória.

Hoje em dia vejo como essa prática me ajudou muito! Ao decorar um texto, todas as vezes que me lembrava dele as palavras iam me revelando, pouco a pouco, o que o autor queria transmitir. E lembro-me de como fiquei maravilhada nas primeiras aulas de Estudos Literários na faculdade quando meu professor mostrou a infinidade de coisas que podemos extrair de apenas uma linha escrita por um grande autor.

Para melhorar nossa capacidade de enxergar estas coisas, além de ser imprescindível se expor todos os dias a um pouco de boa literatura, é muito importante sabermos alguns poemas ou trechos de algumas narrativas de cor. De cor vem do latim e significa do coração. Portanto, o verbo decorar significa guardar no coração. Essa prática cria em nós um lugar reservado para cultivarmos as belezas que colhemos. Lá iremos triturar, mastigar, revirar e encontrar o que está escondido: pequenas sementes preciosas que poderão criar um belo jardim dentro de nós.

Os textos literários também dão à nossa língua uma forma única! Nossas mensagens e textos escritos nas redes sociais, dificilmente passarão por este tipo de tratamento formal. Assim, tendo contato com essa forma diferente de organizar nossas impressões, vemos quão complexa é a nossa língua materna e de que maneira podemos estrutura-la para que sua forma corrobore com a mensagem que queremos transmitir.

Você não precisa necessariamente decorar poemas gigantescos e difíceis, mas também não vale decorar os poemas concretos que formam uma imagem ao repetir a mesma palavra em várias posições diferentes! Decore, inicialmente, poemas escritos em português para conhecer melhor nossa própria língua e desenvolver um olhar mais atento e amoroso. Se comprometa a decorar um por mês, e em um ano você já terá decorado doze poemas!

Deixo aqui em baixo alguns poemas que gosto muito! Se gostarem, podem escolher um desses ou todos, para decorar!

Meu epitáfio - por Cora Coralina

Morta... serei árvore
serei tronco, serei fronde
e minhas raízes
enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas quebradas de uma lira

Enfeitai de folhas verdes
a pedra de meu túmulo
num simbolismo
de vida vegetal.

Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.

Busque Amor novas artes, novo engenho - por Luís de Camões

Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.

Remissão - por Carlos Drummond de Andrade

Tua memória, pasto de poesia,
tua poesia, pasto dos vulgares,
vão se engastando numa coisa fria
a que tu chamas: vida, e seus pesares.

Mas, pesares de quê? perguntaria,
se esse travo de angústia nos cantares,
se o que dorme na base da elegia
vai correndo e secando pelos ares,

e nada resta, mesmo, do que escreves
e te forçou ao exílio das palavras,
senão contentamento de escrever,

enquanto o tempo, em suas formas breves
ou longas, que sutil interpretavas,
se evapora no fundo do teu ser?

24/04/2020

Instante


Foi o teu olhar - é evidente!;
Que tocou o meu segredo.
Queria ser sua confidente,
Escutar sua voz sem medo.

Enterrei as flores que me deu
Suspeitando que iriam renascer...
(Enfeitariam a casa onde viveu)
Murcharam todas: ninguém quis ver.

As suas cartas, estas eu guardei!
Palavras inúteis lidas a todo o momento.
Derramo lágrimas finas; a tinta secou.

O seu perdão sempre esperei...
Coração em perpétuo tormento!
Nele pulsa o sangue que te matou.

Gabriela Miranda

23/04/2020

Método para aprender palavras novas

Imagawa Women - Hirezaki Eihou (1881-1968)

Muitas pessoas tem pavor de estudar a gramática, mas o maior desafio para mim é aprender palavras novas. Se tratando de uma língua como o japonês, que não possui nenhuma ligação com o português (exceto pan que significa pão), você terá de aprender tudo do zero, sem conseguir presumir o significado das palavras.

Existem diversas técnicas que buscam transformar este processo menos árduo e mais eficiente, mas acredito que esses dois termos raramente conseguem se unir perfeitamente. Como já tentei vários métodos diferentes, vou compartilhar com vocês o que funcionou melhor para mim.

21/04/2020

A paciência no processo de aprendizado de uma língua


Aprender uma língua do zero exige de nós paciência. É preciso colocar-se todos os dias diante dos mesmos desafios: estudar, esquecer, lembrar, esquecer de novo, errar, acertar (às vezes). Uma lição muito importante que aprendi nesses anos que venho estudando japonês é que a vida é feita majoritariamente de erros, mas nossos acertos, mesmo que sejam poucos e pequenos, possuem uma força muito superior para modelar nossa história.

Errar é agir no vazio; arremessar e não alcançar. Cabe somente a nós deixarmos que eles, nossos erros, sigam seu destino natural: revelarem o que está escondido. E o que é que está escondido? Nossa disposição para tentar! As tentativas nos indicam que estamos no caminho certo, porque mesmo que não se obtenha logo de cara o resultado esperado, estamos trilhando um caminho! E para perseverar neste caminho temos que aceitar os erros que virão e perceber que o que nos motiva é a firme decisão em continuar, não a quantidade de acertos que fazemos.

Quando começamos nossa jornada com uma língua, é comum pensarmos que se estudarmos freneticamente por uma semana, ou por um mês – para aqueles que são mais corajosos; ficaremos bons e fluentes rapidinho. Isso é uma ideia sem pé nem cabeça! Nosso processo de aprendizado é como o de uma criança, que pouco a pouco apreende a realidade ao seu redor e começa a se arriscar neste mundo; buscando compreender como as coisas funcionam. É claro, isso é um processo bem demorado que leva a vida toda, aumentando com os anos a complexidade daquilo que se investiga. Alguns podem ficar desmotivados diante disso, mas pense só como seria assustador acordar um dia, após ter estudado doze horas no dia anterior, sabendo falar perfeitamente uma língua estrangeira! Isso com certeza não seria fruto do nosso estudo, e ficaríamos assustados tentando descobrir que chip colocaram em nossas mentes!

Brincadeiras à parte, o que quero dizer é que aprender uma coisa nova exige tempo. É preciso deixar que as raízes cresçam, e aguardar pelas pequenas plantinhas que crescerão. Boa parte do nosso trabalho será regá-las todos os dias, não permitindo que pereçam. E nada mais do que isso! Não espere que exista algum método rápido+fácil+prático que vai te deixar fluente em menos de uma vida inteira de dedicação. Aceitar esta realidade é aceitar a própria vida!

Não tenha medo do tempo que pode levar, nem das horas que precisará gastar, nem dos erros vergonhosos que ficarão gravados na sua memória. Optar por este caminho é melhor do que jamais ter começado. Então se você está aí pensando se deve começar a estudar japonês, ou qualquer outra coisa, simplesmente comece! Faça todos os dias um pouco e não se preocupe em ficar analisando os micro progressos que fizer, porque é como ficar olhando para um bolo que está assando: parece que nunca fica pronto! Estude, se encante, e deixe as sementes germinarem em segredo e no silêncio! Em algum momento, poderá comemorar os frutos que virão.

18/04/2020

Minha trajetória estudando japonês sozinha


Atualmente o aprendizado de línguas é visto pela maioria das pessoas como mais uma característica indispensável para aqueles que almejam ser “grandes”. O inglês é o principal, mas só ele não basta, precisamos de no mínimo mais duas ou três línguas. E isto não é uma opção. Apesar de todos os desconfortos que essa ideia nos causa, ela tem sim sua razão de ser. Depois que comecei a estudar japonês, fui vendo como realmente aprender um novo idioma te torna “grande”. E não entenda grande como sinônimo de prestígio social e econômico, mas como sinônimo de dilatar o coração.

Comecei a estudar a língua japonesa sozinha quando tinha treze anos. A princípio era um simples divertimento para ocupar as férias. Estudava muito pouco; gostava mais de assistir séries japonesas e fingir que isso também pudesse ser chamado de "estudo". Quando as férias acabavam, o japonês também ia por água abaixo. Penso que talvez não me dedicasse tanto porque não via futuro naquilo. “Bom... Farei o vestibular, terei uma profissão. E nunca mais estudarei japonês”, era esse o meu pensamento. Mas, as coisas não aconteceram bem assim.

Um dia, uma amiga da minha mãe me perguntou como estavam os meus estudos, já que ela tem descendência japonesa e sempre conversávamos sobre isso. Disse que estava indo bem devagar, e ela me encorajou a continuar. Sempre terminávamos nossas conversas assim, mas naquela vez algo diferente tocou o meu coração. Depois que ela foi embora, liguei o computador imediatamente para ver a grade de letras com habilitação em japonês, porque me lembrei de uma bolsa de estudos que o Governo japonês oferece para os alunos que fazem este curso no Brasil. E a dúvida que me perseguia naquela mesma manhã (qual curso devo fazer?) encontrou sua resposta! Vou fazer Letras Japonês! Foi assim que entrei na Faculdade de Letras da USP.

Apesar deste relato não ser precisamente sobre como fiz para estudar japonês sozinha, quis contar essas coisas para introduzir o assunto que desejo compartilhar aqui. Acredito que esses relatos pessoais que nos dão ânimo para perseverar. Sempre acompanhei muitas meninas nas redes sociais que também estudavam sozinhas a língua japonesa, e isso me ajudou a não desistir porque via que o que estava buscando não era algo impossível.

Portanto, quero falar nesse blog sobre como esse idioma dilatou o meu coração, me fez conhecer pessoas novas, me ensinou a me encantar pela minha própria cultura e criou dentro de mim um desejo imenso de conhecer a beleza deste mundo que se esconde na língua de cada povo.