17/07/2020

Leitura: Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski.


Recentemente terminei de ler Os Irmãos Karamázov e fiquei pensando se escreveria alguma coisa sobre essa leitura aqui. É um livro gigantesco - tanto em tamanho como em profundidade, e meus comentários não poderiam ser nada além de impressões totalmente pessoais. Consegui vislumbrar alguns abismos e esconderijos onde tesouros preciosos poderiam estar escondidos, mas não passou muito disso. Contudo, ser capaz de distingui-los no meio de palavras que se seguiam ad infinitum foi muito encorajador! "Bom, pelo menos consigo ver que há alguma coisa aqui", foi o que eu pensei.

Esse tipo de livro toca profundamente em algo que há muito tempo foi esquecido, deixado de lado, embalado junto com o lixo da cozinha: o mistério. Literatura não é texto jornalístico, não é informação facilmente digerível, feita para ser lida numa sentada, num passar de olhos, sem nenhum respeito a quem escreveu. É preciso atenção, cuidado e abertura! Nossos corações se endureceram porque queremos sempre ter as melhores ideias, tomar os melhores partidos, ter uma vida que não passa pela fase do não-ser, ela tem que acontecer agora e pra já e depressa. E a paciência? E o silêncio frente ao desconhecido? Não temos tempo para isso... Não estou fora desse grupo, aliás, por saber dessas coisas é ainda mais doloroso ver como isso verdadeiramente está presente em nós. É triste.

Escrevo tudo isso por causa de uma passagem no livro que me encantou muito: a conversa de Aliocha com Kólia. Vejo que nós, ou pelo menos uma boa parte de nós, somos como o Kólia. Sedentos por uma vida própria e ansiosos para marcar a história do mundo, devoramos as primeiras e mais absurdas propostas que nos apresentam. O cuidado excessivo da mãe talvez tenha potencializado isso, fazendo com que o menino tivesse medo de não conseguir dar uma resposta à altura e acabar como  um filhinho da mamãe para sempre, com ideias retrógradas e extremamente incoerentes com o modelo de jovem revolucionário. Em contraste, temos Aliocha: o cara que foi para o mosteiro. Bom, ele realmente está fora do círculo de influências do grande Kólia. Mas o que livro nos conta, colocando na boca do próprio personagem, é a profunda curiosidade e admiração de Kólia por Aliocha.

É muito bonito contemplar como o garoto começa a desabrochar diante dessa figura intrigante. Aliocha se abaixa e consola, toma o menino pela mão e o reposiciona no caminho correto. Ele abre um espaço no peito para que lá o pequeno se encontre, fazendo com que se sinta igual à ele. E de fato ele é, ou melhor, pode vir a ser. Porém, Kólia sabe que está diante de alguém extremamente superior a ele. Arrisco dizer que, talvez, a força desse encontro venha da experiência de enxergar como a grandeza pode se fazer pequena e reconhecível até para olhos imaturos e prepotentes. E graças à este livro, também puder viver esse encontro e me questionar se a vida já tinha me oferecido essa oportunidade antes.

E sim, a vida já tinha me oferecido isso antes e, pasme, ela me oferece todos os dias. O que quero com este texto não é fazer uma resenha, crítica ou coisa do tipo. E mesmo se quisesse, não poderia, já que não tenho as ferramentas para isso. Simplesmente espero que ele sirva como um afastador no peito de cada um. Essa passagem do livro me colocou diante de algo que não consigo dizer, a não ser que transcreva aqui todo o trecho. Mas suspeito que, mesmo se fizesse isso, ainda assim seria muito difícil explicar as causas do meu encanto por um raciocínio lógico e causal. Sendo assim, só tive uma opção: abraçar este mistério e conviver com ele dia e noite, até que chegue a primavera e ele desabroche.

06/07/2020

Poética.

As poças de água brilhando com a chuva:
Cai gota por gota – perfeita calmaria!
Sobre a terra que cobre o marido, a viúva
Chora lágrima por lágrima. Ave Maria!

Arfa de dor e amor: velha, curvada e magra.
Silenciosamente aperta as mãos em prece,
Sua alma relutante à Virgem consagra.
Mesmo se confessar aos outros pudesse

Que palavras cumpririam fiel serviço
De emoldurar uma vida inteira de amor?
Além da Morte, que poeta poderia

Ter nas mãos tão incompreensível artifício
Capaz de salvar do último beijo o ardor
Como quem sabe que o primeiro esqueceria?

Gabriela Miranda.

13/06/2020

Poesia e silêncio.


“Quando n'alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.”

No começo do mês comecei a decorar este poema do Manuel Bandeira, mas pela suposta agitação e ocupação exaustiva daqueles meus dias, acabei parando na segunda estrofe. Pensando que um poema decorado já não serve pra muita coisa, meio poema serviria menos ainda – essa era a minha íntima constatação. E vivi meus dias andando de um lado pro outro, tendo em alguns momentos a lembrança destas palavras que de certa forma me chamavam. Passou.

Dia vinte e um de março de dois mil e vinte. Logo ao acordar, esse poema surge em minha memória. Não me disse nada além das palavras que já conhecia, mas o silêncio dos últimos dias tinha me dado uma nova possibilidade: escutar o que antes não podia. Calada, sentada e atenta: penso nele. Tenho estudado um pouco sobre a história de Portugal e me encantado com o tipo de vida que se vivia há tanto tempo atrás: os reis, os camponeses, as disputas, as guerras, as preces, as pestes... “Quando n'alma pesar de tua raça, a névoa da apagada e vil tristeza...”! É isso! É exatamente o que estamos vivendo!

No poema, Bandeira fala sobre o povo português e o grande Camões. Sei muito pouco sobre o contexto histórico em que foi escrito, e se por acaso Portugal passava por algum momento difícil, portanto estou limitada a dizer somente aquilo que a minha ignorância grosseira pode apreender. Vivemos dias incertos (sempre foi assim e será). Antes, caminhávamos na vida à moda da prosa: correndo por muitas linhas, parágrafos, páginas. Sem pausas ou instantes concentrados de vida que clamassem por atenção. Tudo estava disperso e nossos corações vazios. De repente, da prosa fez-se a poesia. Ao homem desatento a vida pediu atenção, e ao homem barulhento ela pediu silêncio. Era isso que antes buscávamos sem saber...

“Busque ela sempre a glória que não passa, em teu poema de heroísmo e de beleza”, eis a receita do bolo. Mas que poema é esse?, poderíamos perguntar. Camões escreveu tantos, Bandeira outros mais. E hoje há um florescer constante de gente que escreve e que quer ser lida. Para onde devemos então voltar o nosso olhar? Para os nossos poemas! Existe uma frase que gosto muito e ela diz assim: transformar em poesia heroica a prosa de cada dia. E é dessa poesia que estou falando.

Bandeira dirá sobre o poeta lusitano: "Gênio purificado na desgraça, tu resumiste em ti toda a grandeza: Poeta e soldado...". Diante dessas palavras a constatação foi clara. Como o poeta e o soldado, devo estar atenta ao essencial, mas um me conduzirá ao alto e o outro fincará meus pés no chão.

Só com metade de um poema fui salva dos mares agitados destes tempos.


Texto escrito originalmente no dia 21 de março de 2020.